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Notícias | Atualidade

Hospital Beatriz Ângelo

Urgências voltam a estar cheias

6 de novembro de 2021
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22 de Outubro, em Loures, doentes urgentes estavam com oito horas de espera.

Nos centros de saúde, médicos continuam a ser desviados para áreas ‘covid’ sem ver doentes crónicos, que acabam nos hospitais descompensados.

7 horas e 55 minutos de espera para doentes urgentes. Dia 22 de outubro ao final da tarde era este o cenário no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures. As urgências em Lisboa têm estado cheias nas últimas semanas, numa altura em que a afluência a nível nacional volta aos níveis pré-pandemia, depois da queda durante o último ano. «Não é covid-19 nem são tanto infeções respiratórias, que estão a começar, mas há uma inversão na tendência com mais doentes e mais doentes graves», explicou fonte hospitalar. Também no Santa Maria havia ontem quase quatro horas de espera para doentes urgentes, quando o tempo recomendado para ver doentes triados com pulseira amarela são 60 minutos. Os dados de monitorização das urgências, mostram que na última semana os doentes não urgentes representaram, a nível nacional, 42% das idas às urgências. Mas há hospitais em Lisboa onde a percentagem de doentes triados como urgentes subiu para 60%, parecendo inverter este ciclo clássico em que muitos doentes que podiam ser vistos fora dos hospitais recorrem aos serviços de urgência.

À percepção de que estão a chegar mais doentes descompensados aos hospitais, sinais de que vem aí uma época com mais infeções respiratórias com o regresso à normalidade e equipas desfalcadas em vários hospitais têm estado a aumentar a preocupação no setor, numa altura em que nos corredores é patente o cansaço e o «mal estar» dos profissionais, com espelho nas greves convocadas pelas diferentes classes. Ao mesmo tempo, a dificuldade em contratar por exemplo enfermeiros para o SNS mantém-se. «Nem enfermeiros em part-time estamos a conseguir contratar», disse outra fonte hospitalar, admitindo que há vários serviços com a corda na garganta, num problema que se estende a vários hospitais e, no caso dos médicos, é mais sentido em especialidades como anestesiologia e obstetrícia. E estar já no outono com as urgências congestionadas e com doentes (e grávidas) a ser desviados de uns hospitais para os outros é visto como um mau sinal. O problema das urgências tem inclusive sido objeto de reuniões com a Administração Regional de Saúde de Lisboa, mas as soluções tardam e a resposta em rede não se vê de imediato: enquanto do dia 22 de outubro havia estes dois hospitais com tempos de espera mais elevados, no Amadora-Sintra o tempo de espera era inferior a uma hora, o mesmo por exemplo em S. José.

Plano outono/inverno com um mês de atraso

No ano passado, o plano para o outono-inverno do Ministério da Saúde foi apresentado a 21 de setembro. Este ano, até fim de outubro, não tinha sido tornado público e a tutela não dá qualquer previsão. Os hospitais fizeram os seus planos de contingência como habitualmente, no final de agosto foi apresentado uma proposta de referencial numa reunião com as ordens mas não foi posta em marcha nenhuma nova organização para as urgências em articulação com os centros de saúde ou para a recuperação da atividade assistencial não covid, antecipando picos de pressão ou o impacto que isso pode ter no aparecimento de doentes mais descompensados, como os hospitais começam a verificar.

Em relação ao inverno, as preocupações maiores prendem-se, mais uma vez, com a capacidade de garantir uma resposta em rede dos hospitais e atuar sobre o problema da descompensação de doentes crónicos, que já antes da pandemia sobrecarregava as urgências e agora surge agravada pela diminuição da resposta assistencial no último ano e meio: há atrasos nos rastreios, os centros de saúde ainda não retomaram totalmente a atividade, há uma diminuição na deteção precoce de doença. Há muito tempo que devia haver uma avaliação das áreas mais afetadas e uma estratégia de recuperação, que até hoje não se conhece.

Chama-se a atenção para a necessidade de reforçar os apelos à população sobre a correta utilização dos serviços de saúde nesta altura do ano e o recurso ao SNS 24, garantindo que está preparado para responder ao aumento da procura. O reforço da informação à população foi também defendido durante por Gustavo Tato Borges, da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, que alertou que as pessoas estão a valorizar menos os sintomas.

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